Menu Fechar

3.ª entrevista do Grupo de Trabalho COVID-19 ECCO, publicada a 27 de março de 2020

ENQUADRAMENTO E INTRODUÇÃO

Após as primeiras notificações de casos de síndrome respiratória aguda na cidade chinesa de Wuhan no final de dezembro de 2019, as autoridades chinesas identificaram um novo coronavírus como o principal agente causador. O surto evoluiu rapidamente, afetando outras regiões da China e outros países. Foram detetados casos em vários países asiáticos, bem como na Austrália, Europa, África, América do Norte e América do Sul. A 12 de fevereiro de 2020, o novo coronavírus passou a ser designado como síndrome respiratória aguda grave por coronavírus 2 (SARS-CoV-2) e a doença associada é agora referida como COVID-19. A transmissão entre seres humanos foi confirmada, mas são necessárias mais informações para avaliar a extensão total deste modo de transmissão. As evidências da análise dos casos até à data indicam que a COVID-19 causa doença ligeira (isto é, não pneumonia ou pneumonia ligeira) em cerca de 80% dos casos, sendo que a maioria dos casos recupera, 14% têm doença mais grave e 6% têm doença crítica. A grande maioria das doenças mais graves e mortes ocorreu entre pessoas idosas ou com outras doenças crónicas subjacentes ( https://www.ecdc.europa.eu/en/current-risk-assessment-novel-coronavirus- situation).

O objetivo deste documento é proporcionar aos profissionais de saúde algum entendimento e conhecimento sobre os melhores cuidados que podemos prestar aos nossos doentes, particularmente àqueles que estão a receber tratamento imunossupressor/imunomodulador no atual contexto da epidemia de COVID-19.

Devido à urgência, a European Crohn’s and Colitis Organisation (ECCO) sugeriu reunir um grupo de gastroenterologistas com especial interesse em Infeções Oportunistas e especialistas em doenças infeciosas para disponibilizar regularmente orientações aos médicos da comunidade ECCO.

Estas orientações não substituem as recomendações das autoridades de saúde nacionais, devendo ser consideradas como informação adicional, que será atualizada quando necessário, com base no nosso melhor entendimento sobre esta nova doença. Da mesma forma, as orientações que se seguem não são acompanhadas de nenhuma recomendação da ECCO.

Este documento tem o formato de entrevista a gastroenterologistas e especialistas em doenças infeciosas provenientes de vários países europeus, tendo sido revisto pelo Grupo de Trabalho COVID-19 ECCO.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

  1. Devemos utilizar agentes biológicos/imunomoduladores de forma diferente em doentes idosos com DII e/ou em doentes com DII e comorbilidades em risco de COVID-19? Devemos diferenciar entre doentes idosos com DII que têm a doença controlada e não controlada? Devemos aplicar medidas adicionais nesta população vulnerável, em comparação com a população geral de doentes com DII?

Esta é uma questão importante para a qual, infelizmente, ainda não temos uma resposta exata. Contudo, devemos continuar a tentar tratar os doentes com DII tal como fazíamos na era pré-COVID-19. Dito isto, no caso dos doentes idosos, nomeadamente aqueles mais vulneráveis, será prudente tentar dar o nosso melhor para utilizar estratégias monoterapêuticas e limitar a utilização de imunomoduladores por precaução. Esta tem sido a prática padrão para muitos doentes, mesmo antes do aparecimento da COVID-19, por receio dos riscos acrescidos de infeção em doentes idosos com DII. A inflamação ativa, por si só, pode ser um fator de risco para o desenvolvimento de infeções da DII. Além disso, queremos manter os nossos doentes fora do hospital neste momento, por isso é provável que os benefícios da continuação do tratamento superem atualmente os riscos de desenvolvimento de COVID-19. Ainda estamos a aprender sobre esta questão, mas manter os doentes idosos sem exacerbações (com imunossupressores/imunomodulares, se necessário) terá dois benefícios potenciais, para além de ajudar a controlar a DII: 1) potencialmente diminuir o risco de contrair COVID-19; 2) evitar que os nossos doentes se desloquem ao hospital, onde o risco de COVID-19 é maior. Os dados atualmente disponíveis mostram que a taxa de letalidade é mais elevada entre os doentes com 60 anos ou mais. Isto foi demonstrado de forma evidente num artigo de Onder et al na revista médica JAMA1, segundo o qual a taxa de letalidade entre os doentes com idade igual ou superior a 80 anos atingiu os 20%. Deste modo, os doentes idosos com DII, especialmente aqueles a receber tratamento imunossupressor, devem tomar todas as precauções recomendadas pelas autoridades de saúde locais/nacionais para as populações de risco, nomeadamente um distanciamento social mais rigoroso (por exemplo, pedindo a outras pessoas que façam as suas compras essenciais).

  1. Descrição da iniciativa SECURE-IBD e os primeiros resultados sobre aquilo que sabemos sobre os doentes com DII que desenvolveram COVID-19 ao nível mundial.

O Surveillance Epidemiology of Coronavirus (COVID-19) Under Research Exclusion (SECURE-IBD) é um registo internacional de doentes adultos e pediátricos com o propósito de monitorizar e notificar os desfechos da COVID-19 em doentes com DII. O SECURE-IBD (www.covidibd.org) foi desenvolvido em parceria com Crohn’s & Colitis Foundation, a International Organization for the Study of IBD (IOIBD), a European Crohn’s and Colitis Organisation (ECCO) e a North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition (NASPGHAN). O objetivo do SECURE-IBD consiste em determinar rapidamente o impacto da COVID-19 nos doentes com DII, incluindo o impacto de fatores como a idade, comorbilidades e tratamentos para a DII nos desfechos da COVID-19. A equipa do SECURE-IBD está empenhada em disponibilizar atualizações regulares à comunidade de DII sobre o número de casos notificados e os respetivos desfechos, incluindo dados discriminados por região geográfica e por tratamento para a DII. As atualizações são divulgadas no website do projeto, por e-mail e no Twitter.

O registo SECURE-IBD recolhe dados anonimizados, em conformidade com os requisitos de “porto seguro” para a privacidade das informações ao abrigo do Health Insurance Portability and Accountability Act (HIPAA).2 O Departamento de Ética para a Investigação com Seres Humanos da UNC-Chapel Hill determinou que o armazenamento e a análise de dados anonimizados não constituem investigação com seres humanos e não necessitam de aprovação de um Conselho de Revisão Institucional (CRI).3

Até à data, o SECURE-IBD tem verificado um elevado nível de resposta. A 23 de março, mais de 23 000 visitantes de 120 países tinham acedido ao website do SECURE-IBD. Aprendemos imenso na última semana e temos o prazer de partilhar estes dados com todos. Visite o website www.covidibd.org regularmente pois a situação está a evoluir rapidamente e as informações são atualizadas frequentemente.

A 23 de março, tinha sido notificado um total de 41 casos de COVID-19 (22 casos de doença de Crohn e 19 casos de colite ulcerosa). Recebemos notificações de 13 países diferentes. Foram notificados dez internamentos e dois óbitos (um homem de 82 anos da Europa com colite ulcerosa ligeiramente ativa, doença de Alzheimer e doença cardiovascular, tratado com 4 g de messalazina por dia, e um homem de 25 anos, com colite ulcerosa moderadamente ativa, tratado com infliximab a cada 8 semanas e 15 mg de metotrexato uma vez por semana) Estão disponíveis mais informações, incluindo a discriminação dos casos por idade, sexo, geografia, tipo de doença e medicação, em www.covidibd.org. Consulte o separador Updates and Data.

Precisamos da sua colaboração! Notifique todos os casos de COVID-19 confirmados em doentes com DII, independentemente da gravidade. Os casos devem ser notificados após um período mínimo de 7 dias e após ter passado tempo suficiente para observar a evolução até à resolução da doença aguda e/ou morte. Além disso, divulgue o SECURE-IBD entre os seus colegas locais, nacionais e internacionais.

A cooperação, colaboração e comunicação internacionais permitir-nos-á otimizar os cuidados de saúde dos nossos doentes durante esta crise de saúde mundial sem precedentes. Estamos todos juntos!

 

Entrevista realizada em nome do Grupo de Trabalho COVID-19 ECCO a

Michael David Kappelman

Professor de Pediatria e Professor Auxiliar de Epidemiologia

University of North Carolina at Chapel Hill

EUA

Ryan Ungaro

Professor Associado

The Susan and Leonard Feinstein IBD Center Dr. Henry D. Janowitz Division of Gastroenterology Icahn School of Medicine at Mount Sinai EUA

Nota

Dada a natureza dinâmica da infeção e o constante desenvolvimento de informações e evidências, algumas destas orientações serão atualizadas regularmente, com base em recomendações personalizadas para cada região, de acordo com as melhores evidências.

Neste momento, estão a ser criados dois projetos independentes para reforçar o nosso conhecimento sobre esta nova doença nos nossos doentes com DII. Convidamo-lo/a a participar.

O primeiro projeto é um inquérito da ECCO destinado a conhecer melhor a sua perspetiva e compreensão da situação atual. A pandemia de coronavírus é um momento difícil para todos, incluindo médicos e doentes com DII. É a primeira vez que qualquer um de nós está a passar por uma emergência semelhante, o que significa que é necessário lidar com situações complexas, das quais sabemos pouco ou nada e que evoluem todos os dias.

Por esta razão, convidamo-lo/a a participar num pequeno inquérito sobre a sua gestão atual, os seus receios e as dificuldades que enfrenta todos os dias no contexto desta importante pandemia global.

O preenchimento do inquérito demora apenas alguns minutos. Por favor, responda antes de 30 de março devido urgência da situação. Este projeto está disponível até 30 de março em: https://survey.ecco- ibd.eu/index.php/433996?lang=en

O segundo projeto é a iniciativa global da International Organization for the study of IBD (IOIBD) que se destina a registar atempadamente casos comprovados de COVID-19 nos nossos doentes com DII.

Referências

 

Nota: Tradução Ana Sofia Correia (ASC Translations: www.asctranslations.pt). Tradução e adaptação da responsabilidade do Doença Crohn/Colite Portugal